Bem-vindos.

Convenceram-me. Seguindo a sugestão de vários, decidi publicar aqui alguns dos meus textos, abrir novamente a gaveta e ver o que sinto. Espero que gostem, obrigado pela visita.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Dorme

Picture: Skylight, Ireland.



A Lara dorme, na noite.
À janela, vejo os sonhos 
dos outros em construção.
Na umbra da face lunar, 
vejo os meus, reflectidos no sono.
Ela vira-se sobre si mesma, a Lara, 
enquanto dorme, na noite.
Os sonhos desenham-se no ar nocturno, 
no fumo disperso do cigarro.
Neste mentol, saboreio o respirar 
adormecido de um amor ainda silencioso.
Tudo dormente, tudo nocturno, 
naquela paz ansiosa que assalta o mundo 
imediatamente antes da euforia caótica.
A Lara dorme, na noite.
Enquanto sonho com ela acordada.
A ti, Lara, porque arde. *14

sábado, 12 de dezembro de 2015

Pétalas e Poeiras

Photo taken in Tasmania


Se não fosses tu e eu não eu e nós outros.
Se fosses livre e eu livre e nós pássaros. 
Corvos entrelaçados numa tatuagem aérea.
Ventos apressados num rodopio invertido.
Pétalas e folhas de outono e poeiras e sorrisos.
Não fosses tu, não fosse eu, se fôssemos nós.
Em lugares sem lugar,
tempos sem tempo, 
nós com tempo.
À chuva, ao sol, em mergulhos açucarados.
Beijos de doces de mel,
mares salgados nos gritos das vozes.
Nós e eu e tu e corvos entrelaçados.
Houvesse tempo ou mentes com tempo.
Livres de coração.

*13

Ageing

Photo by http://www.markusvoetter.com



This is a new territory.
A new world, filled with glimpses of past times.
I lock the door and sit on the floor, the clock on the wall keeps ticking.
seconds circling around...
minutes...  hours.
Days go by, it’s been months now.

I’m growing old within these new walls.
My skin is aged, tired of holding on to this soul.
My spirit is blind for staring at the sun or vampiring through the night.
There’s an invisible gravitational fight suspended in thin air,
Can you feel it flowing, turbulent?
Can you ignore it?
Or ignore ignorance  as a girl sings words in a strange language?
Illyrian, Pinyin, Euskara, Ugaritic or beautiful plain Algerian.
How many languages do you not know?
How many songs do you not hear throughout your days, your life?

To walk out.
Or to fly; learn all the names of the winds.
Zephyrus, Lawaan, Simoon, Sharaav.
Ethereal, eternal, intangible.
Take me there; I’ll hold on to your voice strings.
Words as a flying carpet that crashes constantly into an abyss of boredom.

And seconds circling around...
Take a picture, freeze all the clocks.
How much older am I since a moment ago?
One moment older?
Ageing with a smile.


*08

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Unnamed Etheriality



Painting: "Unnamed Ethereality", by Leote Lamp Designs.

















Day 2:
The skies are back to normal. 
Grey.
Wandering crows.
Two souls want to be together.
Get to know each other.
Share colors of paintings and sounds of poetry.
And bite.
An ethereal approximation.
Beautiful electricity.
Wild winds.
Rhythmic beats.
Nothing is.

Where are the keys to the future?
In the present?
Distance bites. 

Distant bites. Fleshy wounds.
Spirituality then. 

Things of the soul.

Under grey skies, we'll be crows.



*13

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Queda d'Alma num Rio.

Foto: "Escuto o Lamento das águas.", de Rita Aparício.


Um rio que foi feito só para te ouvir.

Que dizes, ou calas-te e pintas?

Dás-lhe silêncio, dás-lhe um olhar,
um sorriso tímido,
uma lágrima atrevida…
Dás-lhe um grito de alma que não sai,
uma tristeza discreta que não amargura,
apenas comove e tropeça no peito…
Ouves o crescer da vida nessa tua redoma,
nesse teu recanto secreto... 
O restolhar selvagem das folhagens verdes.

Onde é? Onde vais e te escondes quando queres cantar?

Onde apagas esse teu fogo,
esse arder laranja de fumos brancos
e ferros na forja e lavas incandescentes?
Ou é só paz, acalmia de espírito,
mergulhar em águas de outros tempos,
recordações de açúcar e algodão doce?
Pintas-te de que côr quando és tu?
Ninfa dos bosques, sereia-miragem de um riacho…
Elfa apaixonada, ente flutuante,
fantasma que paira e se arrasta…
Perdes-te em que tempos?
Ou páras relógios,
adormeces apenas,
numa paz de quem ama...
Sopra agora uma brisa que abraça,
que traz um aroma de vida.
Um lavar de alma
que a pinta de branco,
beijo de chuva miudinha,
erguem-se os ramos,
desce o cinzento dos céus,
descansa...


*08

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Suspenso

foto obtida aqui


Vejo-te, intermitente, enquanto agarro-me a esta parede escorregadia, coberta de musgo.
Arrasto-me na vertical, atinjo o patamar, um arco vazio no meio de nada.
Já não existem salas ou quartos, tudo é vento e chuva.
Agora sou e existo, de braços erguidos, a pintura nos olhos diluída pela água,
a roupa negra beijada de verde e terra, sujo-me entusiasticamente!
Sou besta selvagem em projecção sobre as paredes,
sou demónio fantasma guardião de colunas e fornos de pedra...
Solto rugidos em fúria, urro sobre os ventos,
gestos frenéticos perdem-se de mim em loucura desenfreada,
e um olhar vidrado dirigido aos céus,
não há tectos, também, neste meu reino,
tudo partido e perdido sobre o chão,
tudo velho e gasto e usado,
como esta alma acorrentada...
Atiro-me num vôo, asas de anjo negro, sorrio.
Vejo-te, intermitente, enquanto meu olhar é tinta negra e pálpebras negras.
Pausado o tempo, preso no espaço, restas tu.



A ti, Shu. Ainda. *08

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Criogenia

>foto obtida aqui


Um dia, apenas...
E abrem-se perspectivas de silêncios,
começam os kilómetros a consumir sentimentos.
Ou talvez seja exactamente o contrário.
Neva na noite, nevou ontem,
esfria-se a terra.
Tremores, arrepios.
Dói, calares-te.
Tu e tu e tu.
Circunstâncias,
queria ter voz e matar,
queria gritar e berrar,
inspirar tua mágoa,
beber-te e consumir-te.
Um dia, apenas,
bastou pra me deixar mais só.
Tempo, voa, traz-me o amanhã...
Venda-me o olhar,
press pause,
hold still,
stop all the clocks,
venda-me o olhar.
Volta. Volta. Volta.
Tremores, arrepios.
Dói, calares-te.
Tu e tu e tu.



*08

domingo, 3 de agosto de 2008

Transparências Flutuantes

foto obtida aqui


Transparências flutuantes, medusas fantasmas em busca de côr.
Um mar de outra voz, ondulação de desejos.
Terra que chora, palpitações de núcleos.
Fumaças estáticas desprendem-se dos lábios.
Tudo unido numa harmonia geral.
Numa conjugação de factores na criação dos factos.
O cair das pálpebras na procura de uma fotografia mais real.
O nascer de uma forma palpável.
Transformação de uma ideia abstracta num sentimento de tijolos e cimento.
Como corpos físicos a desafiar a gravidade.
Sem asas, sem propulsores.
Como transparências flutuantes, medusas.
O canto arrepiante das aves.
O grito agudo das águias.
Um esgar que nasce no fundo da garganta.
Um abrir de braços em pleno vazio.
Tentativa frustada de agarrar o que não se vê.
Distúrbio nas canções que cantam nos peitos.
A suplicação a entidades que nunca respondem.
Encostar cansado das mentes nas janelas.
Vibrações nas ondas eletromagnéticas.
A propagação no coração.
Comunicação telepática, de mundos que se amam.
A paz numa lente dirigida ao céu.
Um raio incorpóreo em busca da verticalidade.
Sem limites, estratosfera.
Como transparências flutuantes, medusas.
Tudo é tanto, tudo é belo.
Como tu no meu mundo.
Fazendo-me Viver.


A ti, Shu. *08

terça-feira, 29 de julho de 2008

Vermelho de Sangue

foto de VITOR SHALON obtida aqui


Ou asas nas pedras,
sobre os riachos das aldeias,
sobre as águas fugidias...
e lavadeiras que cantam,
sóis que cegam o fascínio
de quem vive,
de quem grita,
ou cantantes rouxinóis,
verdes quetzais,
dormindo nas copas das árvores...
...e correm os miúdos,
fugindo dos pesadelos,
dos monstros debaixo da cama,
fogem dos choros desalmados,
dos agudos gritos de terror,
dos olhos esbugalhados,
das pernas tremidas,
dos corações aos pulos...
... e correm os graúdos,
fugindo de tudo e de nada,
do real e do desconhecido,
do céu e do abismo,
da vida e da morte...
....ou santos que vertem
o sangue de Deus,
ou almas penadas que
se vêem ao espelho,
ou anjos caindo em
estradas desertas,
ou peixes cantando os versos do mar...
...e matam-se os jovens
julgando amar,
ou berram guitarras
as dores de quem cai,
e saltam as pernas
de quem não sabe voar,
bebendo lareiras
os poemas de amor...
...e sopram os ventos
sobre os cabelos sonhados,
beijos de chuva
sobre a pele escaldante,
ou arrepios saudosos
de quem não se droga,
saudades caídas de
quem se tortura,
e muralhas de aço
erguidas por árvores,
olhando as gentes
vestidas de sangue
sob a sua sombra,
ou pragas ao Sol
e insultos à Lua,
porque já nada explica
porque é que estas gentes de
vermelho insistem em sorrir...
*02

domingo, 27 de julho de 2008

Anjo

Imagem obtida aqui



Ser então um anjo, talvez...
Daqueles que voam, que sorriem,
espalhando os ventos pelas planícies,

as neves pelas montanhas,
os sóis pelos desertos...
E brilhar, de olhos fechados,
batendo as asas sobre o mar,
levando nas mãos estes sonhos,
estes sons,
estas imagens perdidas,
de quem não tem e quer ter,
de quem sonha...
Sonhar, pois,
cantando e voando,
em silêncio, em paz,
num gesto sereno, apaixonado,

de quem sabe que ama...
de quem é amado...
E transformar este céu no chão,
as nuvens em algodão,
em neve quente,
em refrescantes sóis!
Largar o ser verde,
arrancar o pó às vestes
de quem merece desposar
a princesa,
esquecer a tirania dos deuses,
perdoar a insolência da plebe,
a tortura dos quilómetros...
Sim! Ser anjo!
Voar até à outra ponta da
eternidade, do infinito,
cair de cansaço nesta lua
que se exibe aos nossos olhos,
beber a chuva das estrelas
e descansar nesse leito,
nesses braços, nesse colo...
E nadar nessas retinas,
nessa alma,
afogar-me na tua voz,
no ar que respiras,
ébrio de amor,
de inconsciência,
de felicidade...
Talvez amanhã...
Talvez um dia...
Sim, serei anjo... por ti....



*98